Um caseiro de 56 anos, resgatado após quase três décadas em condição análoga à escravidão em Brasília, retornou à mesma casa no Lago Norte onde foi explorado. Ao ser questionado pela TV Globo se deixaria o local, ele respondeu: "Já tô velho, quero ficar aqui".
Natural da Bahia, o trabalhador chegou ao Distrito Federal em 1998 para trabalhar para uma família de empresários. Segundo o Ministério Público do Trabalho no Distrito Federal (MPT-DF), ele nunca teve carteira assinada, não tirava férias e recebia cerca de R$ 200 por semana para cuidar da jardinagem e de animais da propriedade.
O homem vivia em um espaço improvisado na área de serviço da casa, em condições consideradas degradantes pelos fiscais. Ele não possui conta bancária, não tem telefone celular e até a carteira de trabalho ficava em posse de uma integrante da família empregadora.
O caso veio à tona após uma denúncia anônima feita em agosto de 2025, que desencadeou uma força-tarefa com MPT, Polícia Federal e Ministério do Trabalho e Emprego. A investigação revelou ainda outro crime: o uso da identidade do caseiro como laranja.
De acordo com o MPT, o trabalhador figurava como sócio ou administrador de cinco empresas ligadas aos patrões, sem ter qualquer conhecimento do negócio. Em uma delas, ele aparecia como dono de 90% do capital social. Por causa disso, foram encontradas seis execuções judiciais em seu nome, sendo três fiscais.
Questionado se era escravo, ele negou: "O que eu faço aqui é só a limpeza. Um pouquinho, um pouco, limpeza. Mas eu não sou escravo aqui, não". Quando perguntado sobre férias, disse: "Nunca pedi".
Para a procuradora do Trabalho Lys Cabral Cardoso, responsável pelo caso, a situação expõe a exploração da vulnerabilidade e do vínculo afetivo criado ao longo de 28 anos.
"Foi explorada essa conjuntura dele, o fato de que ele não tinha moradia própria, não tinha pertencimento com outros vínculos. Tinha uma relação de dependência com essa família", afirmou a procuradora. Ela destacou que a existência de afeto não exclui o trabalho escravo.
O relatório da assistência social aponta "dependência material" e "dificuldade de construir alternativas de subsistência". O trabalhador, com baixa escolaridade e quadro de alcoolismo relatado ao MPT, perdeu contato com a família na Bahia ao longo dos anos.
A Justiça do Trabalho determinou medidas urgentes de proteção. Os quatro integrantes da família investigados terão que pagar, solidariamente, uma pensão mensal de um salário mínimo, de R$ 1.621, e tiveram até R$ 324,2 mil em ativos bloqueados. Foi proibido ainda o uso do nome, CPF e assinatura do caseiro em atos jurídicos, sob multa de R$ 50 mil por ocorrência.
Em ação civil pública ajuizada no dia 23 de outubro, o MPT pede R$ 2 milhões em indenizações - R$ 1,5 milhão por dano moral individual e R$ 500 mil por dano moral coletivo -, além do pagamento de todos os direitos trabalhistas dos quase 28 anos.
O MPT também solicitou que o afastamento definitivo entre o trabalhador e a família ocorra em até três meses, com acompanhamento da rede de proteção social, para que ele não fique desamparado.
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